Estudos de Caso

Caça de Subsistência em Unidades de Conservação

Autoria: Roberto M.F. Mourão, ALBATROZ Planejamento (nov. 1999)

 

Caça de Subsistência × Comercial

Tradicionalmente a carne de animais silvestres tem sido uma importante fonte de proteína para as populações tradicionais amazônicas, uma vez que produtos vegetais extrativistas ou da agricultura de subsistência são por demais pobres em termos protéicos.

A substituição da proteína de animais silvestres por proteína vegetal ou de animais domésticos, no cardápio das comunidades, não é apenas uma questão de controle e fiscalização rigorosa, mas passa, sobretudo, pela introdução de práticas produtivas alternativas, que devem ser amparadas por políticas que informem, sensibilizem e promovam mudanças culturais.

Associado à questão de apoiar e introduzir alternativas a fontes de proteínas, deve-se buscar aumentar a fiscalizar e punição de infratores, a fim que se possa controlar a caça com fins de comercialização, uma vez que fomos informados que é possível comprar ou comer carne de caça em restaurantes em Santarém, mesmo sendo a caça, se houver flagrante, crime na lei brasileira.

Na Amazônia há uma grande demanda por todo tipo de caça e pesca – sobretudo antas, macacos, cotias e peixes-boi – pois não há atividade pecuária nem avicultura intensas na região. São consumidas pelo menos 30 espécies de animais protegidos pela legislação ambiental.

Na foto acima, carcaças de pacas em restaurante à beira da rodovia Macapá-Oiapoque. Estávamos acompanhados de agentes da policia florestal por estarmos em missão oficial. As carcaças foram apreendidas e o proprietário multado. Mas sabemos muito bem que a prática continua e o restaurante vai continuar servindo carne de caça de animais silvestres.

Alguns barcos pesqueiros comercializam caça além de peixes, em viagens que duram em média uma semana. Barcos pesqueiros, com capacidade entre 300 a 2 mil quilos, voltam com os porões cheios de peixes e carne de caça. Paralelamente aos caçadores, há barcos geleiros exclusivamente de pesca. Eles levam pelo menos 12 pescadores a bordo e em 15 dias carregam cerca de 6 toneladas, dando preferência a tucunarés, tartarugas e peixes-boi. Outro tipo de barco, os regatões, também concorrem pela caça. Os regatões são “barcos-mercearias” que trocam produtos alimentícios e, principalmente, cachaça por caça e pesca.

Além disso, alguns regatões mantém caçadores agregados, que saem do barco principal em pequenas canoas e embrenham-se nos igapós em curtas caçadas.

Quando passa às mãos de intermediários, a carne de caça chega a triplicar de preço antes de atingir os mercados clandestinos consumidores, onde a população oriunda do interior mantém os hábitos alimentares inalterados.

Peixe Boi

O peixe-boi (Trichechis inunguis) está entre as espécies mais ameaçadas de extinção.

Muito caçado durante o ciclo da borracha, desenvolveu uma audição apurada e foge ao menor barulho de motor de barco. Esta estratégia é inútil contra canoas a remo e o conhecimento de seus “pastos aquáticos”, onde são apanhados sistematicamente.

A carne de peixe-boi é conservada na própria gordura e guardada em latas – conserva chamada de “mexira”. Quando a carne vem salgada o preço cai 30%.

Segundo o jornalista Gabriel Nogueira, participante da expedição ao Rio Demene, Estado do Amazonas, em 1991. Francisco Assis Bittencourt, um caboclo de 41 anos, é um desses caçadores profissionais. Mora num barco com a família, um irmão e um amigo e faz o percurso dos rios. “Não gosto de morar na cidade, fico muito preso”, explica, ao oferecer à equipe de pesquisadores 40 quilos de carne de peixe-boi. Mesmo com a recusa de compra, em pouco tempo a carne havia sido vendida.

A gente mata o peixe-boi nos lugares onde ele está comendo. Fica bem quieto. Quando ele sobe à tona para respirar, arpoa ele“, contou Francisco.

Enquanto a pesca e a caça de subsistência devam ser permitidas para comunidades tradicionais, o comércio deve ser reprimido nas cidades e vilas, a fim de evitar o desequilíbrio.

Raimundo Lira, dono de uma fábrica de gelo em Barcelos, no Amazonas, conta: “Em cada viagem vêm dois ou três peixes-boi, cada um com 80 a 100 quilos”.

“A melhor carne do mundo é a do peixe-boi. Macaco tem a carne muito dura”, comenta o “capitão” Francisco Miguel, líder da comunidade indígena Baniwa no baixo Rio Demene, Amazonas. Segundo ele, a caça de antas, porcos do mato e pacas é mais farta à noite, entre setembro e outubro. A pesca melhora a partir de outubro, quando os rios começam a secar. (a Gabriel Nogueira, jornalista Agência Estado, Expedição Rio Demene, 1991).

Caça de Subsistência na Região dos Rio Tapajós e Arapiuns

O relato a seguir foi obtido em maio de 2000, com um ex-caçador de subsistência, atual morador da Comunidade de Jauarituba, antigo morador da Comunidade de Muratuba, atualmente incorporada à Res. Extrativista Tapajós-Arapiuns.

Antonio de Oliveira, 62 anos, conhecido por Mucura (tupi, de micura, gambá, timbu), foi caçador por 15 anos, prática abandonada a pedido da mãe, que benzeu e curou uma picada de uma cobra surucucu, passando a viver só da pesca.

De fala mansa e aparentando não ter pressa nenhuma, Mucura tem um arsenal de “causos”, estórias e histórias que se mesclam num verdadeiro painel da vida cabocla, onde a fronteira entre a verdade e a invenção é um mero detalhe.

Caça Comunitária

A caça comunitária é prática regular nas comunidades amazônicas e em geral é praticada por 2 a 3 caçadores, no máximo 5, também acontecendo do caçador ir à caça sozinho. As caçadas, 2 por semana, duravam em média 1 dia ou 1 noite, mas em certas ocasiões duravam a semana inteira, de segunda a sábado.

Independente do número de participantes, a caça sempre é repartida entre parentes, amigos e vizinhos em porções chamadas de “putaua”, que corresponde a 3 a 4 quilos de caça, suficientes para provisionar por um dia uma família de 6 a 8 pessoas ou para um bom assado com amigos.

Mucura, quando caçador, alimentava a família de mulher e 3 de um total de 6 filhos que teve (5 mulheres e 1 homem).

Tipos de Caçada

A caçada em geral é feita à noite e de “espera” em rede armada em galhos de árvores, com altura que depende do tipo da caça, a partir de 2 metros do solo (paca, tatu) e podendo atingir até 10 metros, para animais de faro apurado (anta, veado).

Outras vezes a caçada é feita durante o dia, na trilha dos animais ou com cachorros farejadores. Quando a caçada é feita na época das chuvas (“inverno”) ou vai durar alguns dias, os caçadores preparam um abrigo chamado “tapiri” coberto com palha de palmeira curuá ou inajá.

A Tralha

A arma usada em geral é a cartucheira calibre 20, mortal a 20 ou 30 metros, com cartuchos normalmente recarregados pelo próprio caçador com bagos de chumbo de tamanho proporcional ao porte da caça.

Dependendo do tempo que se vai passar caçando, fazem parte da tralha a faca e/ou facão (terçado), o “suqui’ (sacola de pano amarrada no ombro à moda bandoleira), fósforos, lanterna, sal, pimenta, limão, rede e mosquiteiro.

A Bóia

Antes de caçar, a bóia é fraca. O caçador leva farinha que misturada com água que obtém em igarapés ou cipós na mata, prepara o “chibé”, que tem uma versão “luxo” com adição de sal, pimenta e limão, chamada de cação.

Após caçar, o caçador prepara o “salmorado”, que consiste em salgar a carne em peças para conservar.

Após a salga no paneiro, cesto de tala de palmeira de trançado largo, geralmente forrado de folhas, usado para carregar mercadorias (farinha, frutas, etc), também considerado localmente como padrão de medida, a peça de carne é enrolada com folhas (caponga, caxirica ou cacau da mata) e em seguida é enterrada para evitar moscas varejeiras.

Outra forma de conservar a carne da caça é fazendo um “muquiado”, que consiste em assar a carne, depois de limpa, por 2 a 3 horas, no “muquem” (espeto) ao calor de brasas (o fogo é feito ao lado e brasas são arrastadas para debaixo do muquem). A carne não consumida pode ser guardada por até uma semana desde que seja aquecida todo dia, caso contrário apodrece.

Caça – Trabalho Pesado

Conta Mucura que, certa vez, ele e o cunhado, com a ajuda de 4 cachorros, abateram 8 caititus. As carcaças, depois de limpas da barrigada, foram carregadas para casa numa distância de mais de 8 km, em caminhada de quase 6 horas.

As cargas, pesando uns 80 Kg por homem, foram carregadas no “cipoapara”, espécie de amarrado de cipós que se apoia na cabeça e nas costas.

Produto da Caça de Subsistência

Mucura estima que em seus 15 anos como caçador na região de Muratuba, onde caminhava mata adentro até 20 km (± 4 horas) de sua casa, abateu em sua “vida de caçador”:

Valores estimados em maio 2000
Comercialização ilegal e clandestina
* carcaça  /. ** refere-se à carne limpa

 

 

Roberto M.F. Mourão / ALBATROZ Planejamento
Para uso e permissões favor contatar: roberto@albatroz.eco.br

 

 

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